domingo, 4 de agosto de 2013

Coisas que definitivamente não sabemos fazer

I – Andar civilizadamente de guarda-chuva

A chuva assim como o trânsito ou o álcool possui a nefasta propriedade de trazer à tona o lado maníaco das pessoas. Faz algum tempo que o guarda-chuva deixou de ser um objeto insignificante, pelo menos para mim (claro que um pintor impressionista não pensaria assim), e adquiriu contornos demoníacos e assassinos. Não é apenas a maneira das pessoas agirem nas multidões que decaiu homericamente, o objeto em si me parece muito suspeito, alguns modelos atuais vão contra qualquer ética (no sentido oftalmológico) e o próprio avanço da civilização.


Monstros portáteis:





1  1)     Bom para estocar os olhos de maneira objetiva.
2  2)     Bom para estocar os olhos ao sabor do acaso.



O que está por trás de um guarda-chuva:



É evidente que atualmente as pessoas são mais mal-educadas, grosseiras e fanfarronas do que em qualquer outro período da história, porém o guarda-chuva não é coisa segura para circular por aí livremente, ou então que todos possam andar com sabre ou punhal para se defenderem. Prova empírica disso é que nesse ano dia 18 de junho, no Brooklym, região de New York (USA) Shamell Allen assassinou o taxista Orji-Ama Uro com uma única estocada no olho, com seu odioso guarda-chuva.
Não creio que a chuva tenha perdido todo o seu potencial lírico, ainda considero belos o versos de Rimbaud: “Chove serenamente por toda a cidade”; de Roberto Piva: “Cabelos molhados te espero na garoa”; Apollinaire: “Chovem vozes de mulheres esquecidas mesmo na recordação”; Baudelaire, brumas e chuvas: “De um vago túmulo e um sudário vaporoso.”; Drummond: “A chuva me irritava. Até que um dia descobri que Maria é que chovia.”; Jim Morrinson: “Viajantes na tempestade. Nessa casa nascemos. Nesse mundo fomos jogados...”; Paulinho da Viola: “Começou bem cedo aquela chuva. Sem fazer ruído e me doendo”. Ou mesmo uma cena inesquecível do cinema, evidente que o emblemático guarda-chuva é de um tremendo mau gosto:



Definitivamente o inferno não é chuva, o inferno são as pessoas!
Como o comportamento social diante de uma alteração climática é de uma aberração sem tamanho sou obrigado a caminhar com uma continência permanente na altura das sobrancelhas, fingindo proteger meus olhos da chuva, quando na verdade temo o ataque mortal de alguma velhinha distraída munida de sua pérfida sombrinha. Estou tentando me convencer a comprar um, aliás, precisam modernizar colocando limpa-lentes automático:



Mas sinceramente, será a prova cabal de que nossas práticas de convivência estão chegando ao fim. De que não há muito a esperar do outro. De que estamos definitivamente no cada um por si, e todos contra todos. Se, aliás, já não é isso!

Acusações:
11-      As autodenominadas “pessoas” não sabem manobrar guarda-chuva, vêm em sua direção como um touro furioso. Em dias de chuva o jeito é saltar como um sapo para não receber estocada.
22-      As autodenominadas “pessoas” andam de guarda-chuva embaixo das marquises e toldos. Porquê? Para sacanear quem está sem.
33-      As autodenominadas “pessoas” se plantam nos pontos de ônibus cobertos com o guarda-chuva aberto, isso é, metade do guarda-chuva fica dentro metade fora, para canalizar melhor a água em direção à vítima.
44-      As autodenominadas “pessoas” não secam o guarda-chuva antes de entrar no ônibus, preferem fazer isso em nossas calças e sapatos.


Soluções:

Artefatos oftalmológicamente sustentáveis:













A arte de Morrer

A ARTE DE MORRER

Hudson R. Santos

O inverno chegou abruptamente e você Alan, contrário às expectativas interrompe seu périplo pelo silêncio e retoma o hábito antigo de vagar pela noite onde rostos flutuantes passam velozmente e escorrem para o esquecimento. Agora sim Alan, você morrerá. Esqueça seus planos delirantes e ouça a voz da razão. Ainda recordo você dizer que gostaria de estar em sono profundo, o pescoço fortemente anestesiado e embaixo de uma guilhotina que baixaria velozmente, isso é bobagem Alan. Recordo suas tentativas de pular pela janela (lembre-se que nunca fui eu a te impedir, eu não Alan). Você quis morrer até com resfriado, queria conduzi-lo a uma serena pneumonia que tornaria mais e mais grave. Quantas vezes parou na rua e perguntou onde estavam os motoristas bêbados naquele instante, Alan, isso faz rir. Em silêncio quantas vezes você rezou para que uma bala perdida encontrasse seu crânio. Quanta má vontade meu caro, quanto tempo perdido. Quem quer morrer Alan, tem que se matar! Agora é comigo, os medicamentos que te enviei serão eficazes, como pedra amarrada no pescoço e lançada em rio profundo (a pedra Alan, nunca mente para a gravidade), como dois tiros nas têmporas, como furos de faca nos pulmões, como chamas cobrindo o corpo e descendo pelas tripas acompanhando o álcool, como dois balaços, Alan, de Winchester dois canos no céu da boca, como a voluptuosa hemorragia nos pulsos quando as mãos são decepadas, mas de uma maneira, Alan, tranqüila e serena e sem uma gota de sangue, a não a de uma possível hemorragia nasal, devido a alta dose de medicamentos, um risco de nada. 

Antes de tudo cautela. É necessário completo silêncio sobre o assunto. Um pequeno comentário pode por tudo a perder atraindo excessiva vigilância e uma verdadeira greve será feita para você não morrer. Dissimulação é outro ponto: mostrar apatia, dores existenciais, tédio sem fundo, remorso sem quê, são equívocos terminantemente fatais. Sorrisos cordiais ajudam, mas abraços calorosos e gargalhadas francas possuem efeitos mais enérgicos. É aconselhável ter algumas metas para os próximos anos, como um argumento inconsciente, mas plenamente satisfatório de que você está longe de ser um suicida. Esqueça os antigos amigos, aqueles ingratos que te seguraram quando tentou várias vezes pular pela janela (queria saber Alan, porquê nunca pulou quando estava sozinho? que insensatez!) e concentre-se nos novos amigos que são mais fáceis de enganar, pelo menos enganá-los quanto aos seus planos de morrer por conta própria. Dinheiro é fundamental: o suicídio eficaz é oneroso. Faça reservas consideráveis. É aconselhável banir o uso do álcool e demais drogas “evasivas” que além de trazerem dúvidas infundadas sobre sua resolução são dispendiosas e podem obrigar a que o suicídio seja praticado bem mais tarde, quando talvez perca o sentido. Tão logo tomada a resolução recomenda-se o prazo de um mês para sua realização.

Um bom local para morrer são os hotéis – como recomenda também Claude Guillon –  exceto para aqueles que possuem seguro de vida e querem que o mesmo seja recebido por sua família, cuja morte mais eficaz sem dúvida é a simulação de um acidente de trânsito, para o qual ajudam algumas garrafas de destilados. Tente um hotel Alan. Não um bom um hotel, mas um onde as pessoas sejam mais ou menos displicentes, é preciso observar. Não avise ninguém onde estará. Se por cúmulo do azar telefonarem quando você tiver acabado de tomar os medicamentos, será um desastre, as pessoas são obsessivas em darem recados, alguém baterá em sua porta e como não haverá resposta, pegará uma chave na portaria para ver o que está acontecendo e te flagrará em pleno andamento do suicídio. E fique sabendo que anti-vômito não agüenta com dedo na garganta. É muito provável que esse patife te reanime e você tenha que seguir alguns anos com terríveis seqüelas, algumas das quais podem impedir irrevogavelmente o suicídio. Se o córtex motor for afetado por exemplo, você pode perder os movimentos dos membros superiores e inferiores, e então meu caro, quero ver só como é que você se matará. Por isso utilize apenas a dosagem que deixei indicada, exagerar pode ser um mau negócio. Pague dois dias adiantados e minta descaradamente afim de não ser incomodado. Diga que é fundamental que você permaneça sem ser incomodado, e como isso é verdade, diga com veemência Alan. Se encontram seu corpo antes que os medicamentos façam efeito tentarão reanimá-lo, não permita isso. Depois de uma tentativa a segunda é sempre mais difícil. Se quer morrer Alan, é preciso morrer de uma vez. Preste atenção Alan, quando eles entrarem em seu quarto, talvez lá pelo terceiro dia, devido ao seu “sumiço” – preste atenção em como essa palavra é engraçada Alan – devem encontrar apenas seu irremediável cadáver. Se morrer no primeiro dia, ganhará um dia inteiro de segurança no segundo. Assim que combinar os dois dias na portaria o mais correto é subir, esperar algumas horas, pedir um lanche fugaz, reforçar que você não quer ser incomodado e tomar os medicamentos que combinamos em seguida. Não esqueça o anti-vômito, é imprescindível. Não esqueça que a alta dose de medicamentos pode causar vômitos e afastar Tânatos, deixando sérias seqüelas no lugar de uma agradável morte. Insisto em que reforce o estômago com um lanche e o anti-vômito. Não reforce a porta, de nada adianta. Deixe em um envelope as despesas do enterro e um maço de notas ao lado para ser roubado impunemente – lembre-se de que seu cadáver dará algum trabalho – e suas despesas fúnebres serem deixadas em paz. E não esqueça, Alan, a música, ouça uma música que goste enquanto os medicamentos fazem você desaparecer do seu corpo.

*

O mal de Machado

O mal de Machado



Por Hudson R. Santos

No principio, disse Mário, o Machado caia num leve estado melancólico apenas nas inaproveitáveis tardes de domingo. Enquanto caminhávamos por uma estrada de terra em Alumínio e passamos por uma casinha abandonada e bastante tragada pelo chão o Machado disse que há muito sofria de uma depressão crônica e profunda e não entendia por que não se tratava. Um pouco pelos mesmos motivos apresentados em Memórias do subsolo e um pouco pela fascinação por Saturno e a vivência imensa e gélida que proporcionava seus auspícios, disse o Machado, com o pé apoiado na cerca de arame farpado, talvez meditando sobre a ruína urdida pelo tempo e os desastres pessoais provenientes de seu talento para perder a fala. Assobiei uma arcaica canção de minha infância evocada pelo lugar e também apoiei meu pé como se a cerca o esperasse. Percebi que ela havia baixado muito e só então retirei o pé, o Machado também, disse Mário. Ficamos em silêncio por algum tempo com os pés no chão enquanto o arame farpado subia e descia num ritmo cada vez menor.
É engraçado que eu fale agora, porque costumo ficar quieto. Se numa animada conversa num grupo de amigos eu disser algo ninguém prestará atenção, teria que passar pela maçada de cutucar alguma vítima para que percebesse minha existência. Se conseguisse uma vez, na próxima ela esfregaria o lugar do cutucão e gritaria para que eu parasse com aquelas infantilidades. Nestes casos, disse o Machado, simplesmente não sei mais o que dizer e permaneço esquecido até a hora de dividir a conta. O mais estranho é que as pessoas falam sem parar enquanto não encontro uma palavra sequer, sou um pouco o Fabiano do Vidas secas. E o pior é que eu fale agora e você tenha a impressão de que não sou bem assim, na verdade não há o menor sentido em falar sobre minha mania de não falar. Seria melhor calar agora, eu preferiria, mas a coisa toda é tão absurda, tão absurda. Fico com raiva de falar e, de repente, os momentos em que não tinha fala parecerem redimidos, amenizados, uma ova, isso sim! Tagarelo agora, mas naqueles momentos vivi o diabo. E você ainda riu quando eu disse que viria aqui para sentar, fechar os olhos e pensar sobre a poeira!
Veja se não sou um infeliz: Se tento falar com estranhos na rua sou tacitamente ignorado, seguem surdos, por isso inventei um enorme parentesco com meu reflexo que agora me confunde, quando pronuncio alguma palavra em frente ao espelho, ele me repete, mas em silêncio, chego a acreditar que do ponto de vista dele eu faça o mesmo. Como eu disse, as pessoas se evadem tão logo eu queira pronunciar algo, uma maldição, e queria apenas pronunciar a palavra rua para ouvidos alheios, o que possui algum encanto, disse o Machado.
Espero que não chore, a vida apronta cada uma. Estava no metrô e sentia-me mal, nada em específico, sentia-me mal com minha existência mesmo e olhava o chão quase sem percebê-lo, sempre tive essa mania de olhar e não ver, em todo caso bem mais tranquila do que a de ouvir e não falar. Pois bem, o metrô se movia e hora ou outra eu teria que descer, pois não faria nenhum sentido eu permanecer indo e vindo por um prazo indeterminado, sem contar que eu seria expulso, para deleite dos meus fantasmas, por tal anomalia de conduta. Um garoto alegre e sua mãe nem tanto, é outra obsessão minha, menor que a de não falar, contudo a obsessão de sempre julgar uma mulher e um garoto como mãe e filho, embora saiba que muitas vezes não é nada disso e faria melhor em perguntar que me contentar em corromper a realidade. Nesse caso em particular meu preconceito visual foi não apenas verossímil como exato. O garoto a todo o momento falava com sua mãe (suponho!) vitimado por uma alegria inominável. O pequeno gênio da comunicação fez-me sentir mais ridículo que o costume e comecei a suar frio com o coração acelerado.
Espera, ansiava, estava desesperado pelo momento em que os assuntos acabariam e tudo retornaria ao normal. Porém as artimanhas do pirralho eram infinitas. Num momento falava sobre a escola, no outro sobre um cartaz que acabara de ver, cochichava algo no ouvido de sua mãe (se não me engano), falava sobre suas sandálias estarem largas ou seus pés pequenos, sobre o calor (que considerei muito importante, por concordar terminantemente e estar quase desidratado), pediu sorvete, pediu a lua e a todo instante mal seus lábios se tocavam, abria-os novamente, para meu incessante espanto. Seu abominável talento para matraquear me obrigou a descer na primeira estação que surgiu. Eu carregava uma mala, embora não fosse a lugar nenhum e servisse apenas como disfarce para aproveitar as delícias do ir e vir do metrô, levei-a ao peito, tremia um pouco e contemplava estarrecido o grande orador, o mestre dos monólogos entreter sua mãe (se me lembro bem) com um agitado mar de palavras dentro do vagão que saia da estação. Naquele momento percebi que minha miséria não teria fim, disse o Machado, disse Mário, enquanto seguíamos de ônibus para Alumínio e eu sentia-me incomodado e como o Machado: quase sem palavras. O estranho é que ao ouvir as palavras de Machado na boca do Mário acabei me acostumando a ser ele, o Machado, pelo menos por algum tempo. Achei engraçado que como as palavras de Machado pronunciadas por Mário a paisagem pela janela também fosse ficando para trás.
Para não tornar-me irremediavelmente mudo passei a falar com o escuro, espelhos e comida, disse o Machado. A primavera costuma retirar minhas mordaças e gostava de falar com avezinhas espertas e velozes a saltarem de um galho para outro. Gostava de discutir com rios e informar-lhe que não me afogaria. Quando surgiam as estrelas, deitado na relva, eu falava, pelo menos acreditava ou tentava me convencer disso, com o infinito universo. Às vezes algum canalha me flagrava no calor da discussão e eu era obrigado a cantarolar qualquer coisa para ser deixado em paz e não sugerir uma vaga em manicômio. Contudo, a vergonha de ser apanhado me furtava por momentos ou dias das minhas únicas conversas possíveis. Por isso, exatamente por isso tenho predileção pelo cinema mudo, não que tenha qualquer coisa contra pessoas falarem o tempo todo em filmes, mas o mudo que segue a palavra cinema me enche de uma nostalgia adorável. Lógico que sofro depois das seções quando as pessoas saem e comentam as falas das personagens, ou outros aspectos menores, e percebo que sou incapaz de falar o que quer que seja sobre um filme. Considero uma infâmia praticarem tagarelices nas proximidades de um ser sem palavras como eu, embora ignorem meu mal. Aliás, isso me fez pensar em como fico abismado com os discursos dos fanfarrões que irão nos passar a perna por um bom tempo se vencerem as eleições. Porém sinto que há toda uma atmosfera mística nesse ato de amarrar palavra a palavra, frase a frase e ainda por cima para uma multidão, meu deus do céu, sou um infeliz! Quando muito diante da turba, que me ignorará de qualquer forma, uma meia palavra rói-me a boca e sinto-me num labirinto que se contrai asfixiante.
Está rindo de novo? Quer saber? Agora falarei pra valer! Sabe o que Schopenhauer dizia, por acaso sabe? “O que torna um homem capaz de conversar bem é a compreensão, o critério, o humor e a vivacidade…”Patifaria filosófica, pois se eu conversasse não daria a mínima para essas bobagens. Agora veja o Wittgenstein: “Sobre aquilo que não se pode falar deve-se calar” um sujeito mais astuto se você reparar. Goethe então, você por acaso já ouviu falar do gênio alemão? Pois acho que não. Goethe escreveu que: “Quem começa a falar começa a errar” Um sabichão de categoria, está me ouvindo? Eu, meu caro, daria um soberbo pitagórico, os sujeitos tinham quer ter a capacidade de calarem por um bom tempo para ingressarem em seus mistérios, uma beleza. Ainda mais que hoje as coisas se inverteram e o importante é falar compulsivamente para não ser um estorvo para o próximo que não quer aturar silêncios dos outros, desses canalhas que ficam por perto com a boca fechada, sem voz, uns nadas. Às vezes sinto que meus dentes soldaram-se uns nos outros e nenhuma palavra pode atravessar essa barreira infernal, apesar dos lábios ainda se moverem. Também há uma prejudicial muralha chinesa barrando a fronteira entre meu pensamento e as palavras, alguma coisa eu sei! Sabe quando se está deprimido e as palavras estão cobertas de espinhos ou envoltas por arame farpado? É isso: as palavras são cansativas depois da cópula, pelo menos comigo é assim, não apenas de cansarem em encontrarem sentido, em encontrarem o outro, mas de ser tempo de dizerem mais em forma de uma mão que adormece sobre uma vulva, seio ou coxa. De não se encaixarem na boca para alçar voo e serem mais fáceis de expressar com um gesto, uma carícia, ou mesmo um ato, como o daquele desconhecido amante sobre quem nunca se teve notícias e pode ser eu, que preferiu ficar nu na chuva com um cigarro quase apagado nos lábios a continuar na cama com sua querida após o coito e o gozo usufruindo do seu sagrado silêncio, oferecendo um silêncio medíocre em troca. Ficou só, nu e tremendo na noite imensa tomada pela chuva e seus ruídos. Sei que estou falando muito, mas para mim sempre serei o caladão de que chamaram, uns patifes festivos, o meu querido Strindberg em seu Inferno, deixando-o mais deprimido do que estava e mais quieto do que queriam, disse o Machado.
Não falar quando a palavra já preenche a boca e basta soltá-la no ar. Emudecer. Amordaçar-se. Silenciar. Lábios costurados. Boca carcomida e pútrida. Naufrágio da palavra. Traças da fala. Impronunciar. Expandir o silêncio. Fazer-se ninguém. Afasia. Trancar a voz. Ocultar-se. Martelar a língua. Esgar. Evadir. Ausentar-se. Trancar corvos na boca. Sequestrar abismos. Implodir a alma. Ou quando muito, algaravia do silêncio: gritar e ninguém ouvir. Ninguém ouvir e as palavras serem futuros vindos de nossas lembranças. Por que acha que grito de susto se me perguntam algo? Às vezes sinto que não me conheço há muito tempo.
Sabe aquele silêncio inconfundível e específico do elevador depois que as pessoas se cumprimentam? Vai se tornando mais e mais pesado, não é mesmo? Ali, por alguns instantes, todos se tornam um reflexo meu alterado por espelho mágico. Não acha encantador terem que olhar os sapatos, dentro da bolsa, o teto, as paredes, as horas para não entrarem em parafuso? Quando muito escapam frases prontas que horrorizam principalmente quem as disse: “Que calor!”, “Como está abafado!”, quando fariam bem em dizerem: “Que merda!”, “Que bosta!”, não acha? “Que vida!”. Gosto principalmente quando acompanho os viajantes para altos andares e toda palavra parece ancorada na lua, no outro lado do lago da voz. Como é agradável esse silêncio forçado dos linguarudos que fofocam sem parar pelo globo terrestre. Perdem seus estatutos e garantias ontológicas e apenas sobem de bico fechado, inseguros e irritadiços, pela mudez paquidérmica do outro.


Uma chuva veloz nos encontrou enquanto descíamos um declive rochoso, nossos pés patinaram um pouco, confesso que considerei cômico nos olharmos de vez em quando para falarmos daquelas coisas que tão logo ditas são esquecidas, porém nos enchem de uma satisfação constantemente ignorada. Achei engraçada a situação de Machado que após sua brilhante explosão verborrágica agora se ocupava apenas em não cair e quebrar os ossos. Éramos dois homens encharcados no fim da chuva, o mundo que parecíamos adentrar era mais luminoso e nítido. Recordei que o Machado havia falado depois que deixamos a casinha ser engolida pelo chão que certa vez bebeu tanto que, ao vomitar, teve a impressão de que sua saliva havia se convertido em areia que escorria em profusão para fora do seu corpo. Gárgula do tempo brutalmente emudecida, ele pareceu a si mesmo, disse o Mário. Éramos dois homens encharcados no fim da chuva e olhávamos o lago de águas quietas, acho que o Machado pensava em poeira, disse Mário quando enfim nos levantamos. Chegamos em Alumínio e chovia. Chovia e sentia que as palavras de Machado repetidas por Mário se entrelaçavam com águas, vento e frio, e os dois lugares que eram o mesmo se confundiam, cheguei a acreditar por instantes, que quem nunca falava era eu. Corremos de cabeça baixa para um abrigo até que cessasse. Saltamos algumas poças tremeluzentes no caminho.



                                               * * *

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O OVO ENCALACRADO

A lua é habitada por ovos.
- Clarice Lispector

Agora é um ovo delicado, tenro, humilde,
e não tenho medo, e sinto pena dele, quase ternura

- Caio Fernando Abreu

Às duas da manhã encontro o ovo sobre a mesa enquanto desfila a monótona e gélida chuva de setembro. Demoro a voltar a mim, meus pensamentos vagueiam pelo labirinto da casca do ovo. Mentalizo acender um cigarro, mas tenho preguiça de buscá-lo no quarto, fico no escuro queixando-me da enorme escada, quinze degraus, absurdo, ave de rapina, escada é coisa de nazista, sento, o dia anterior evapora do calendário, dissolvido, meus olhos ficam mais pesados, mas noite após noite pássaros invadem meus sonhos e juntam-se aos outros em revoada. Os ruídos distantes dos automóveis estilhaçam-se nas notas do piano invisível da chuva. Debruço-me, há orvalho ou lágrimas cobrindo o ovo. Sinto pena do ovo na solidão da mesa, não muita, para poupar energias, as mesas deveriam estar sempre cheias de gente, as portas abertas. Farei-lhe companhia até de manhã, isso não exige muito esforço, temo esquecê-lo se deixar a cozinha.

Os ovos são quase imperceptíveis de tão comuns, nenhuma garota encontra um ovo na praia num domingo de manhã e diz que ele se parece com o James Dean ou o Marlon Brando, isso nunca acontece, por outro lado nenhum ovo sofre o complexo de Édipo, nem precisa trabalhar nas eleições.

Fito-o demoradamente, não porque não possa fazer outra coisa, mas porque isso é cômodo, ele parece palpitar com seu ar bíblico mais ou menos trágico e seu perfil de Al Capone, talvez em seu interior um mago brinque de encantar serpentes ou pássaros e sopre um arco-íris de estrelas entoando canções de lavadeiras se eu quebrar a casca, mas estou fraco para isso.

Parece que todas as coisas ignoradas estão fechadas e aprisionadas num ovo que nunca encontramos. Ovo na geladeira ou embaixo da galinha, aéreo e subterrâneo, na capela ou no bar da esquina, o ovo está em toda parte, o ovo é o mundo, o ovo é dentro da gente.

Fico amedrontado sem razão, ébrio de modorra ou sonolência, parece que o ovo tragou sorrateiramente, mas não quero levantar-me e dar a volta na mesa e ver se está escondendo um cigarro, prefiro esperar para ver.

Colombo só chegou à América porque sempre carregava um ovo cozido no bolso, muitas culturas arcaicas tinham-no por: O primogênito, aquele que dava a forma correta ao tempo e espaço, mas eu acabo vendo-o apenas parecido com um cara mais ou menos frustrado, que não bebe cerveja, não ouve Beatles e talvez fume escondido.

A vontade de fumar aumenta, chove mais forte, a preguiça também aumenta, quase letargia, o ovo sempre na dele, sei que se eu fosse até o quarto o ovo ficaria exatamente no seu lugar, não me sacanearia desaparecendo ou transformando-se em cinzeiro, lagartixa ou aspirina. Comovo-me com esse lado humano do ovo, meus olhos marejam-se, quase subo para pegar o cigarro, mas minha preguiça mentaliza a tempo, todas as campanhas antitabagismo que conheço e me faz refletir um pouco sobre a incoerência funcional das escadas.

Apoio os braços para economizar energias, o ovo não parece isolado das coisas e do mundo na solidão da mesa, parece que as coisas e o mundo se distanciaram dele, na solidão de fora, da chuva, da noite. Fico pensando que se um cigarro girasse velozmente, sem parar, não ficaria parecido com um ovo.

Os apaixonados deveriam presentear suas amadas com um ovo, pensei até em um receituário: para os encontros noturnos o ovo deve ter vaga-lumes amarrados em volta, para as indecisas um poema de Camões na casca, para as castas um seio pintado na ponta, em todas as outras situações uma dúzia de ovos fresquinhos, isso comove qualquer um, sem contar que o ovo não vai sacaneá-las também, quando apagarem a lâmpada para dormir, se aproveitando disso para dançar balé de sombrinha ou tocar saxofone com palito de fósforo.

Sinto um cigarro materializar-se entre meus dedos e a idéia de levantar-me e subir a escada e atravessar o corredor e girar a maçaneta e empurrar a porta, desmaterializá-lo. O ovo é quase impossível, um instante substitui outro, o universo incessantemente se mete numa série infinita de mudanças, mas o ovo não muda, nem num átimo, nem em uma hora, nem em um dia, ovo é reacionário, deve ter doença de convicções e verdades eternas, só pode ser adepto de alguma seita fundamentalista.

Talvez se eu subisse rastejando para o quarto economizasse energias, nem precisaria levantar-me, era só jogar-me da cadeira e pronto, mas essa é uma atitude muito suspeita na frente de um ovo, que talvez tenha o péssimo hábito de fumar escondido. O ovo é quase nada, só sabe ficar onde o deixamos, e isso comove pra caramba, é triste pensar que Marilyn Monroe ,por exemplo, jamais escreveu embaixo da fotografia de um ovo: "isso não é um ovo", nem que existiu outro ator como Chaplin para comer um ovo cozido, numa cena, é triste mesmo.

Fecho os olhos para pensar num plano para chegar até o cigarro, sei que o ovo não vai se aproveitar disso para mudar em bula de remédio, camisinha, cigarro ou dentadura, e de repente descubro porque o Salvador Dali pintava tantos ovos em seus quadros, as pessoas veriam simplesmente um ovo e não uma vaca siberiana vestindo terno, o pingo do i visto de Júpiter por um furação bailarino, a revolução francesa segundo a perspectiva das formigas ou um isqueiro que declama poemas em grego.

Elaboro um plano perfeito, porém irrealizável, ligo para um amigo, digo que fui seqüestrado em minha casa e estou em estado de choque, quando ele chegar consigo que busque o cigarro, dizendo que estou paranóico e acho que um seqüestrador esqueceu de ir embora, ou resolveu seqüestrar meu quarto, mas são dez passos até o telefone, uma odisséia, teria que me jogar da cadeira, rastejar e arriscar-me a discar sem olhar os números, pois usaria muitas forças para sentar-me, teria que ser deitado mesmo, com o braço esticado. Poderia também colocar fogo na casa, é simples incendeio a cortina, é mais fácil arrastar-me até ela, e fico esperando os bombeiros socorrerem-me, mas estou com preguiça de verificar se tenho um isqueiro no bolso, seria como procurar o Minotauro num labirinto, a fatigada busca do Santo Graal ou a demorada de um sentido para a vida, não dá, péssima idéia.

Acho que a chuva parou, apenas acho, não vejo necessidade em olhar para a vidraça, meus braços ainda estão apoiados na mesa e lentamente vou abaixando a cabeça para eles, meus olhos parecem uma porta fechada onde alguém fica batendo, batendo, batendo. O ruído distante dos automóveis mistura-se com o canto das sereias que não sai de dentro do ovo, ainda tenho vontade de fumar, mas constato que a cozinha e o quarto estão em universos paralelos, não quero dormir, sempre há pássaros em revoada, quero esquecer que o ovo existe, abrir os olhos e levantar a cabeça para olhar um ovo não tem sentido, mas temo que ele perca seu lado humano se deixá-lo, mudando em aparelho de tv, parafuso ou panfleto de eleição, mentalizo um cigarro voando até meus lábios, aceso, e ouço o rumor dos pássaros no telhado, pousando como chuva.