Por Hudson R. Santos
No principio, disse Mário, o Machado caia num leve estado melancólico apenas nas inaproveitáveis tardes de domingo. Enquanto caminhávamos por uma estrada de terra em Alumínio e passamos por uma casinha abandonada e bastante tragada pelo chão o Machado disse que há muito sofria de uma depressão crônica e profunda e não entendia por que não se tratava. Um pouco pelos mesmos motivos apresentados em Memórias do subsolo e um pouco pela fascinação por Saturno e a vivência imensa e gélida que proporcionava seus auspícios, disse o Machado, com o pé apoiado na cerca de arame farpado, talvez meditando sobre a ruína urdida pelo tempo e os desastres pessoais provenientes de seu talento para perder a fala. Assobiei uma arcaica canção de minha infância evocada pelo lugar e também apoiei meu pé como se a cerca o esperasse. Percebi que ela havia baixado muito e só então retirei o pé, o Machado também, disse Mário. Ficamos em silêncio por algum tempo com os pés no chão enquanto o arame farpado subia e descia num ritmo cada vez menor.
É engraçado que eu fale agora, porque costumo ficar quieto. Se numa animada conversa num grupo de amigos eu disser algo ninguém prestará atenção, teria que passar pela maçada de cutucar alguma vítima para que percebesse minha existência. Se conseguisse uma vez, na próxima ela esfregaria o lugar do cutucão e gritaria para que eu parasse com aquelas infantilidades. Nestes casos, disse o Machado, simplesmente não sei mais o que dizer e permaneço esquecido até a hora de dividir a conta. O mais estranho é que as pessoas falam sem parar enquanto não encontro uma palavra sequer, sou um pouco o Fabiano do Vidas secas. E o pior é que eu fale agora e você tenha a impressão de que não sou bem assim, na verdade não há o menor sentido em falar sobre minha mania de não falar. Seria melhor calar agora, eu preferiria, mas a coisa toda é tão absurda, tão absurda. Fico com raiva de falar e, de repente, os momentos em que não tinha fala parecerem redimidos, amenizados, uma ova, isso sim! Tagarelo agora, mas naqueles momentos vivi o diabo. E você ainda riu quando eu disse que viria aqui para sentar, fechar os olhos e pensar sobre a poeira!
Veja se não sou um infeliz: Se tento falar com estranhos na rua sou tacitamente ignorado, seguem surdos, por isso inventei um enorme parentesco com meu reflexo que agora me confunde, quando pronuncio alguma palavra em frente ao espelho, ele me repete, mas em silêncio, chego a acreditar que do ponto de vista dele eu faça o mesmo. Como eu disse, as pessoas se evadem tão logo eu queira pronunciar algo, uma maldição, e queria apenas pronunciar a palavra rua para ouvidos alheios, o que possui algum encanto, disse o Machado.
Espero que não chore, a vida apronta cada uma. Estava no metrô e sentia-me mal, nada em específico, sentia-me mal com minha existência mesmo e olhava o chão quase sem percebê-lo, sempre tive essa mania de olhar e não ver, em todo caso bem mais tranquila do que a de ouvir e não falar. Pois bem, o metrô se movia e hora ou outra eu teria que descer, pois não faria nenhum sentido eu permanecer indo e vindo por um prazo indeterminado, sem contar que eu seria expulso, para deleite dos meus fantasmas, por tal anomalia de conduta. Um garoto alegre e sua mãe nem tanto, é outra obsessão minha, menor que a de não falar, contudo a obsessão de sempre julgar uma mulher e um garoto como mãe e filho, embora saiba que muitas vezes não é nada disso e faria melhor em perguntar que me contentar em corromper a realidade. Nesse caso em particular meu preconceito visual foi não apenas verossímil como exato. O garoto a todo o momento falava com sua mãe (suponho!) vitimado por uma alegria inominável. O pequeno gênio da comunicação fez-me sentir mais ridículo que o costume e comecei a suar frio com o coração acelerado.
Espera, ansiava, estava desesperado pelo momento em que os assuntos acabariam e tudo retornaria ao normal. Porém as artimanhas do pirralho eram infinitas. Num momento falava sobre a escola, no outro sobre um cartaz que acabara de ver, cochichava algo no ouvido de sua mãe (se não me engano), falava sobre suas sandálias estarem largas ou seus pés pequenos, sobre o calor (que considerei muito importante, por concordar terminantemente e estar quase desidratado), pediu sorvete, pediu a lua e a todo instante mal seus lábios se tocavam, abria-os novamente, para meu incessante espanto. Seu abominável talento para matraquear me obrigou a descer na primeira estação que surgiu. Eu carregava uma mala, embora não fosse a lugar nenhum e servisse apenas como disfarce para aproveitar as delícias do ir e vir do metrô, levei-a ao peito, tremia um pouco e contemplava estarrecido o grande orador, o mestre dos monólogos entreter sua mãe (se me lembro bem) com um agitado mar de palavras dentro do vagão que saia da estação. Naquele momento percebi que minha miséria não teria fim, disse o Machado, disse Mário, enquanto seguíamos de ônibus para Alumínio e eu sentia-me incomodado e como o Machado: quase sem palavras. O estranho é que ao ouvir as palavras de Machado na boca do Mário acabei me acostumando a ser ele, o Machado, pelo menos por algum tempo. Achei engraçado que como as palavras de Machado pronunciadas por Mário a paisagem pela janela também fosse ficando para trás.
Para não tornar-me irremediavelmente mudo passei a falar com o escuro, espelhos e comida, disse o Machado. A primavera costuma retirar minhas mordaças e gostava de falar com avezinhas espertas e velozes a saltarem de um galho para outro. Gostava de discutir com rios e informar-lhe que não me afogaria. Quando surgiam as estrelas, deitado na relva, eu falava, pelo menos acreditava ou tentava me convencer disso, com o infinito universo. Às vezes algum canalha me flagrava no calor da discussão e eu era obrigado a cantarolar qualquer coisa para ser deixado em paz e não sugerir uma vaga em manicômio. Contudo, a vergonha de ser apanhado me furtava por momentos ou dias das minhas únicas conversas possíveis. Por isso, exatamente por isso tenho predileção pelo cinema mudo, não que tenha qualquer coisa contra pessoas falarem o tempo todo em filmes, mas o mudo que segue a palavra cinema me enche de uma nostalgia adorável. Lógico que sofro depois das seções quando as pessoas saem e comentam as falas das personagens, ou outros aspectos menores, e percebo que sou incapaz de falar o que quer que seja sobre um filme. Considero uma infâmia praticarem tagarelices nas proximidades de um ser sem palavras como eu, embora ignorem meu mal. Aliás, isso me fez pensar em como fico abismado com os discursos dos fanfarrões que irão nos passar a perna por um bom tempo se vencerem as eleições. Porém sinto que há toda uma atmosfera mística nesse ato de amarrar palavra a palavra, frase a frase e ainda por cima para uma multidão, meu deus do céu, sou um infeliz! Quando muito diante da turba, que me ignorará de qualquer forma, uma meia palavra rói-me a boca e sinto-me num labirinto que se contrai asfixiante.
Está rindo de novo? Quer saber? Agora falarei pra valer! Sabe o que Schopenhauer dizia, por acaso sabe? “O que torna um homem capaz de conversar bem é a compreensão, o critério, o humor e a vivacidade…”Patifaria filosófica, pois se eu conversasse não daria a mínima para essas bobagens. Agora veja o Wittgenstein: “Sobre aquilo que não se pode falar deve-se calar” um sujeito mais astuto se você reparar. Goethe então, você por acaso já ouviu falar do gênio alemão? Pois acho que não. Goethe escreveu que: “Quem começa a falar começa a errar” Um sabichão de categoria, está me ouvindo? Eu, meu caro, daria um soberbo pitagórico, os sujeitos tinham quer ter a capacidade de calarem por um bom tempo para ingressarem em seus mistérios, uma beleza. Ainda mais que hoje as coisas se inverteram e o importante é falar compulsivamente para não ser um estorvo para o próximo que não quer aturar silêncios dos outros, desses canalhas que ficam por perto com a boca fechada, sem voz, uns nadas. Às vezes sinto que meus dentes soldaram-se uns nos outros e nenhuma palavra pode atravessar essa barreira infernal, apesar dos lábios ainda se moverem. Também há uma prejudicial muralha chinesa barrando a fronteira entre meu pensamento e as palavras, alguma coisa eu sei! Sabe quando se está deprimido e as palavras estão cobertas de espinhos ou envoltas por arame farpado? É isso: as palavras são cansativas depois da cópula, pelo menos comigo é assim, não apenas de cansarem em encontrarem sentido, em encontrarem o outro, mas de ser tempo de dizerem mais em forma de uma mão que adormece sobre uma vulva, seio ou coxa. De não se encaixarem na boca para alçar voo e serem mais fáceis de expressar com um gesto, uma carícia, ou mesmo um ato, como o daquele desconhecido amante sobre quem nunca se teve notícias e pode ser eu, que preferiu ficar nu na chuva com um cigarro quase apagado nos lábios a continuar na cama com sua querida após o coito e o gozo usufruindo do seu sagrado silêncio, oferecendo um silêncio medíocre em troca. Ficou só, nu e tremendo na noite imensa tomada pela chuva e seus ruídos. Sei que estou falando muito, mas para mim sempre serei o caladão de que chamaram, uns patifes festivos, o meu querido Strindberg em seu Inferno, deixando-o mais deprimido do que estava e mais quieto do que queriam, disse o Machado.
Não falar quando a palavra já preenche a boca e basta soltá-la no ar. Emudecer. Amordaçar-se. Silenciar. Lábios costurados. Boca carcomida e pútrida. Naufrágio da palavra. Traças da fala. Impronunciar. Expandir o silêncio. Fazer-se ninguém. Afasia. Trancar a voz. Ocultar-se. Martelar a língua. Esgar. Evadir. Ausentar-se. Trancar corvos na boca. Sequestrar abismos. Implodir a alma. Ou quando muito, algaravia do silêncio: gritar e ninguém ouvir. Ninguém ouvir e as palavras serem futuros vindos de nossas lembranças. Por que acha que grito de susto se me perguntam algo? Às vezes sinto que não me conheço há muito tempo.
Sabe aquele silêncio inconfundível e específico do elevador depois que as pessoas se cumprimentam? Vai se tornando mais e mais pesado, não é mesmo? Ali, por alguns instantes, todos se tornam um reflexo meu alterado por espelho mágico. Não acha encantador terem que olhar os sapatos, dentro da bolsa, o teto, as paredes, as horas para não entrarem em parafuso? Quando muito escapam frases prontas que horrorizam principalmente quem as disse: “Que calor!”, “Como está abafado!”, quando fariam bem em dizerem: “Que merda!”, “Que bosta!”, não acha? “Que vida!”. Gosto principalmente quando acompanho os viajantes para altos andares e toda palavra parece ancorada na lua, no outro lado do lago da voz. Como é agradável esse silêncio forçado dos linguarudos que fofocam sem parar pelo globo terrestre. Perdem seus estatutos e garantias ontológicas e apenas sobem de bico fechado, inseguros e irritadiços, pela mudez paquidérmica do outro.
Uma chuva veloz nos encontrou enquanto descíamos um declive rochoso, nossos pés patinaram um pouco, confesso que considerei cômico nos olharmos de vez em quando para falarmos daquelas coisas que tão logo ditas são esquecidas, porém nos enchem de uma satisfação constantemente ignorada. Achei engraçada a situação de Machado que após sua brilhante explosão verborrágica agora se ocupava apenas em não cair e quebrar os ossos. Éramos dois homens encharcados no fim da chuva, o mundo que parecíamos adentrar era mais luminoso e nítido. Recordei que o Machado havia falado depois que deixamos a casinha ser engolida pelo chão que certa vez bebeu tanto que, ao vomitar, teve a impressão de que sua saliva havia se convertido em areia que escorria em profusão para fora do seu corpo. Gárgula do tempo brutalmente emudecida, ele pareceu a si mesmo, disse o Mário. Éramos dois homens encharcados no fim da chuva e olhávamos o lago de águas quietas, acho que o Machado pensava em poeira, disse Mário quando enfim nos levantamos. Chegamos em Alumínio e chovia. Chovia e sentia que as palavras de Machado repetidas por Mário se entrelaçavam com águas, vento e frio, e os dois lugares que eram o mesmo se confundiam, cheguei a acreditar por instantes, que quem nunca falava era eu. Corremos de cabeça baixa para um abrigo até que cessasse. Saltamos algumas poças tremeluzentes no caminho.
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